2. BRASIL edio especial 45 anos set.2013

1. O MARECHAL E SEU LABIRINTO
2. UM TORMENTO QUE NO ACABA
3. O GERME DO MESSIANISMO
4. A DIFCIL CICATRIZAO
5. UM BRADO RETUMBANTE
6. EU VI MEU AV SAIR DA VIDA E ENTRAR PARA A HISTRIA
7. UMA SUCESSO DE SEGREDOS
8. RATOEIRA NO CRONGRESSO
9. UM MEDO RENITENTE
10. A FARRA DAS SLVIAS VERMELHAS
11. NAS ASAS DO STF
12. ESCNDALO NO CAMPO DA TICA
13. TODOS OS HOMENS SO IGUAIS
14. A CHAMA ACESA DA IMPUNIDADE

1. O MARECHAL E SEU LABIRINTO
A decretao do AI-5, em 1968, fez cair a mscara da ditadura; VEJA desafiou o regime com uma edio ousada, apreendida pelos militares assim que chegou s bancas.

SEM PALAVRAS, MAS MUITO BARULHENTA
18 de dezembro de 1968
A foto do presidente Costa e Silva sentado no Congresso vazio, prximo a um quepe branco de almirante de esquadra, tinha sido feita havia j algum tempo  mas nenhuma imagem poderia traduzir melhor a decretao do Ato Institucional n 5, com o qual a ditadura militar deu incio, numa sexta-feira 13, a um longo perodo de escurido na vida do pas. Por isso ela foi escolhida para a capa da edio de VEJA  sem se fazer acompanhar de uma palavra sequer. No era necessrio: o AI-5 fechara a Cmara e o Senado por tempo indeterminado, deixando claro que seu objetivo era impor o silncio a qualquer voz capaz de se opor ao regime. No por acaso, comeou ali a censura a VEJA, que teve a edio apreendida nas bancas  apesar de haver sido liberada para sair por um certo coronel que se apresentara ao editor Roberto Civita como o primeiro censor da revista. Foi a primeira e ltima misso do militar no cargo: irritado com o que considerou uma provocao de VEJA, o governo federal tratou no s de recolher a edio como tambm de despachar o tal coronel para algum posto perdido no norte do Brasil. 

TRECHO "A capa de VEJA desta semana ia apresentar uma foto da Baslica de So Pedro. Em chamas, simbolizando a situao da Igreja, que, nas palavras do papa Paulo VI, 'est a caminho da autodestruio', e da qual fazemos uma anlise minuciosa na pgina 28. Mas, na quinta-feira passada  quando a Cmara negou a licena para processar Mrcio Moreira Alves , surgiu a ideia de uma capa com um heri muito atual de historietas infantis: Cordlio, o Leo-Carneiro. Um engano de cegonha deixou o filhote de leo entre carneiros que o criaram como tal. Carneiro ele foi at o dia em que um lobo quis devorar mame carneiro. Ento Cordlio sentiu-se transformar e rugiu, e agiu como Leo... Na sexta, entretanto, a capa mudou de novo: nas primeiras horas da manh, as sucursais do Rio de Janeiro e Braslia antecipavam que o governo provavelmente iria reeditar alguns dos atos institucionais promulgados a partir de abril de 1964. Aps examinar uma srie de alternativas, concluiu-se que uma foto do ex-presidente Castello Branco seria a ilustrao indicada para uma reportagem de capa focalizando a retomada do processo revolucionrio. Finalmente, as implicaes do Ato Institucional n 5, baixado na noite de sexta-feira, nos levaram  sbado  tarde  a mudar a capa pela quarta vez."
Carta do Editor assinada por Victor Civita
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Revoluo, Ano zero" foi o ttulo da principal reportagem de VEJA na edio que chegou s bancas em seguida  decretao do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. De fato, ao promulg-lo, o presidente Arthur da Costa e Silva inaugurou um novo perodo da ditadura instaurada pelo golpe militar de 31 de maro de 1964, inapropriadamente chamado de "revoluo". 
     A medida eliminou os poucos limites que ainda restavam ao uso arbitrrio do poder do estado. Tinham incio dez "anos de chumbo", a mais prolongada e completa supresso do estado de direito na histria brasileira. 
SERGIO FAUSTO

     Quem procurar o embrio do AI-5, de 1968, poder encontr-lo no primeiro dos atos institucionais da ditadura. J o prembulo do AI-1, de 9 de abril de 1964, estabelecia que os propsitos da "revoluo" asseguravam por si mesmos legitimidade aos atos do novo governo. Ainda assim, naquele ato, preservou-se parte das garantias, liberdades e instituies vigentes no perodo democrtico de 1945 a 1964, em que pesem as cassaes de centenas de polticos, sindicalistas e senadores pblicos, alm da interveno nos sindicatos. 
     O AI-1, assim como o AI-2, editado no fim de 1965, refletiu o predomnio da corrente menos virulenta da coalizo civil-militar nos anos iniciais da ditadura. Sob a liderana do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, ela pretendia realizar uma cirurgia na vida poltica do pas, para restaurar a democracia em verso saneada e restrita, livre do comunismo e da "repblica sindical-populista". Da as cassaes. E tambm a imposio do bipartidarismo e da eleio indireta para a Presidncia da Repblica, determinada pelo AI-2, e estendida aos governos estaduais, pelo AI-3, em fevereiro de 1966. 
     Para a linha dura, isso era pouco. Manter o Congresso em funcionamento, o Judicirio com alguma independncia, a liberdade de imprensa, ainda que limitada, representaria obstculo  realizao da "obra da revoluo". Seus integrantes desejavam uma ditadura irrestrita. 
     Na sucesso de Castello Branco, a escolha de Arthur da Costa e Silva, que assumiu em marco de 1967, significou uma vitria para esse grupo de fronteiras mal definidas, movido por um anticomunismo feroz e paranoico, insuflado pelo clima da Guerra Fria, por um patriotismo autoritrio e truculento e uma propenso a romper a hierarquia interna das Forcas Armadas. O AI-5 deu  direita mais radical quase tudo o que ela desejava, menos a Presidncia da Repblica. Costa e Silva adotou a linha dura, sem entregar diretamente o poder aos seus membros mais exaltados, soluo poltica consolidada quando da sua substituio pelo general Emlio Garrastazu Mdici, o terceiro dos generais-presidentes, empossado em outubro de 1969, depois do derrame sofrido por seu antecessor. 
     Com o AI-5, a ditadura adquiriu as condies polticas e os instrumentos jurdicos para inabilitar  liquidando-os fisicamente, inclusive  indivduos e organizaes considerados perigosos  continuidade do regime. Para tanto, contou tambm com a nova Lei de Segurana Nacional, de maro de 1967, que tornou passveis de condenao quaisquer manifestaes de desacordo com o status quo. 
     A ascenso da linha dura no interior do regime alimentou-se do crescimento, nas oposies, do nmero de organizaes favorveis a derrubar a ditadura pela via armada e implantar um socialismo de inspirao cubana ou chinesa. Nesse processo de mtua radicalizao, o ano de 1968 foi decisivo. Atas das reunies do Conselho de Segurana Nacional ao longo daquele ano mostram as presses da linha dura sobre Costa e Silva para que o general-presidente adotasse medidas jurdicas que viabilizassem a represso total aos adversrios da "revoluo". Nessa ampla e vaga categoria, cabiam, sem distino, desde os artistas, intelectuais e estudantes que pararam o centro do Rio de Janeiro na Passeata dos 100.000, em junho, at os militantes da Vanguarda Popular Revolucionria (VPR), que no mesmo ms promoveram um atentado ao quartel-general do II Exrcito, em So Paulo, matando um soldado. 
     Na reunio que o ratificou, o AI-5 recebeu elogios e apoio unnimes, salvo pelas tbias ressalvas do vice-presidente, Pedro Aleixo, e de um ministro de menor relevo. Delfim Netto, ento ministro da Fazenda, aprovou a medida, por nela enxergar os meios para conferir maior potncia e eficcia  poltica econmica. Alm de novas cassaes, o AI-5 acarretou o fechamento do Congresso, a submisso das decises do Judicirio ao Executivo, em tudo o que dissesse respeito  ordem poltica e social, a aplicao dura e pura da censura prvia  imprensa, a suspenso do habeas corpus e a virtual cassao do direito de reunio e manifestao. 
     Das muitas aberraes decorrentes da nova ordem, uma foi particularmente monstruosa: a transformao da tortura e do desaparecimento de presos em poltica de governo, prtica que vitimou at mesmo membros da oposio no violenta  ditadura, a exemplo de Rubens Paiva (veja o artigo na pgina 52) e Vladimir Herzog. O aparelho de represso, tortura e assassinato  clandestino porque ilegal at sob a gide do AI-5  contou com o financiamento de algumas empresas e empresrios e com a participao ativa da banda podre da polcia em vrios estados do pas. 
     Com o virtual desaparecimento da esquerda armada  que nunca chegou a reunir mais do que algumas centenas de militantes, mal treinados e mal armados , restou  ditadura militar a legitimidade fornecida pelo "milagre econmico". Entre 1968 e 1973, o PIB cresceu mais de 10% em mdia ao ano. No graas ao AI-5, mas sim s reformas do governo Castello Branco e a condies internacionais extremamente favorveis. O cenrio mudou com o primeiro choque do petrleo, no fim de 1973. O "milagre" perdeu ento parte do encanto e transpareceram os seus aspectos menos luminosos, como a concentrao da renda. 
     Para surpresa de todos, os reflexos da nova conjuntura surgiram nas eleies de 1974 para o Congresso, que havia sido reaberto no fim de 1969. O MDB, o partido da oposio no sistema bipartidrio, dobrou o nmero de integrantes de sua bancada na Cmara dos Deputados e ganhou dezesseis cadeiras a mais no Senado. O partido, que comearia a ser engrossado pelos dissidentes "liberais" do regime, estava longe ainda de ser maioria no Congresso. Ali, no entanto, se abriu um caminho que levaria ao fim do regime autoritrio, derrotado em janeiro de 1985, no Colgio Eleitoral, a mesma instncia que servira para homologar a eleio indireta dos generais-presidentes. 
     O surpreendente resultado eleitoral de 1974 transformaria a distenso iniciada pelo general Ernesto Geisel, o quarto dos presidentes militares, no poder desde marco daquele ano, em real abertura poltica nos anos seguintes, sob o impulso de novas vitrias eleitorais da oposio e de movimentos pacficos de uma sociedade civil plural e democrtica. Empurrado por essa dinmica, o general Geisel promoveu e o Congresso aprovou, no fim de 1978, a supresso dos atos institucionais da ditadura. Ainda no havamos chegado  democracia. Mas se acabavam os dez anos de chumbo iniciados com o AI-5. 
     Vivi criana e adolescente aquele perodo. E dele no tenho a menor saudade. Ter experimentado a ditadura no me faz condescendente com os muitos males e defeitos da poltica brasileira de hoje. Mas tempera a minha crtica com a ressalva de que a democracia  uma imensa conquista e com a esperana de que, por meios democrticos, e s por eles, conseguiremos melhorar a sua qualidade. 
     
Srgio Fausto, cientista poltico,  superintendente executivo da Fundao Instituto Fernando Henrique Cardoso e codiretor do projeto Plataforma Democrtica (www.plataformademocratica.org)

O DIABO DA CENSURA NO MEIO DA REVISTA
At a decretao do AI-5, a ditadura se preocupava em encontrar meios jurdicos de legitimao. A vitria da linha dura no interior do movimento militar resultou na ampliao autoritria do poder governamental. A partir dali, a tesoura da censura se tornaria mais afiada. VEJA permaneceu submetida a ela entre a edio de 18 de dezembro de 1968, que tratava justamente do AI-5 e foi recolhida das bancas, e a de 2 de junho de 1976. Nesse perodo, a revista teve mais um nmero apreendido, em dezembro de 1971, cuja reportagem de capa era sobre a queda do governador Haroldo Leon Peres (PR), acusado de corrupo. Por ter publicado, em fevereiro de 1974, um registro da indicao ao Nobel da Paz de dom Hlder Cmara, arcebispo de Olinda e Recife e inimigo da ditadura, VEJA seria includa no rol dos veculos com censura prvia. Um censor foi incumbido de ler tudo, de ponta a ponta, antes de a revista seguir para a grfica. Nessa fase, foram vetadas 10.352 linhas de texto, 44 fotos e vinte ilustraes. Quando um texto era cortado ou suprimido de ltima hora, a redao punha no lugar ilustraes de anjos e diabos; incomodados, os militares determinaram que as figuras fossem substitudas pela rvore-smbolo da Editora Abril.


2. UM TORMENTO QUE NO ACABA

CORAGEM PARA DENUNCIAR
10 de dezembro de 1969
Depois de publicar, na edio de 3 de dezembro de 1969, a capa "O presidente no admite torturas" - citando um porta-voz do Planalto segundo o qual Emlio Garrastazu Mdici determinara o fim do uso de violncia "no combate  subverso" -, VEJA voltaria ao assunto na semana seguinte de forma corajosa. Sob o ttulo "Torturas", aplicado acima de uma ilustrao antiga que mostrava uma sesso de suplcios, a revista fez denncias explosivas. Na reportagem, VEJA detalhava as circunstncias da morte de Chael Charles Schreier, ex-estudante de medicina, militante da VAR-Palmares (organizao comandada por Carlos Lamarca), depois de ser espancado por agentes da represso.

TRECHO  "As circunstncias estranhas de sua morte levavam a crer que o caso Chael era a primeira prova real de morte violenta durante um interrogatrio policial. (...) Com marcas de autpsia, costuras no trax e nas pernas e sinais de sangue no nariz, o corpo tinha ainda manchas roxas no rosto e na barriga. Um dos primos de Chael, ao sair da sala de purificao, falou: 'Ele apanhou como um cavalo'. Nesta frase parece estar resumida dramaticamente a histria das horas passadas por Chael quando se encontrava preso. Por enquanto, a frase tambm encerra a histria at que uma possvel investigao do Ministrio da Justia a reabra."

O filho de Rubens Paiva, ex-deputado morto no DOI-Codi do Rio, escreve sobre o desespero de pensar no pai pendurado em um pau de arara. Os maus-tratos nos pores foram revelados ao Brasil por VEJA em 1969.

MARCELO RUBENS PAIVA
A adolescente Tayn Adriane da Silva, de 14 anos, foi encontrada morta em 28 de junho na regio metropolitana de Curitiba. A polcia agiu rpido e apresentou quatro criminosos que confessaram t-la estuprado. Trabalhavam em um parque de diverses. A populao botou fogo no parque.

     Dias depois, o caso teve uma reviravolta. Jussara Joeckel, perita da Polcia Civil, disse que no havia sinais de estupro ou abuso nem fissuras nos rgos genitais da garota. A Secretaria da Segurana Pblica informou que o smen encontrado nas roupas ntimas de Tayn no era compatvel com o dos presos, Srgio Amorim, 22 anos, Paulo Cunha, 25, Adriano Batista, 23, e Ezequiel Batista, 22. Eles contaram a integrantes da Comisso de Direitos Humanos da OAB que confessaram o crime aps ter sido torturados na delegacia em que foram "convidados" a depor. Um teve perfurao intestinal, depois de empalado. Outro ficou surdo, com o tmpano rompido, e tem suspeita de osteomielite no pulso. Uma cmera de segurana registrou a imagem da adolescente a caminho do parque. No h provas de que ela esteve por l. 
     A tortura sempre existiu. Apesar de ser considerada crime inafianvel, continua existindo. Existiu em arenas romanas, nas masmorras da Idade Mdia, nos castelos e pelourinhos. Foi patrocinada por imperadores, reis e papas, ditadores de direita e de esquerda. Est l, sempre presente, quando um estado precisa subjugar seus inimigos. Por que a tortura nunca acaba? E serve para qu? 
     Para apressar, com eficincia duvidosa, a concluso de uma investigao criminal. Para encontrar desaparecidos (como a garota Tayn), comparsas, mandantes. Para desbaratar quadrilhas. Como vingana. Para destroar um indivduo, reforar quem manda, dar senso de camaradagem a uma comunidade fechada, como um satnico rito grupal primitivo. Para unir sob uma bandeira fraca. Para humilhar. Como escreveu o marqus de Beccaria, citado na histrica matria de VEJA sobre o assunto, publicada em 1969, cujos trechos nos martelam com insistncia: "Quero inspirar-vos um dio de vs mesmos; ordeno-vos que vos torneis vossos prprios acusadores e digais enfim a verdade ao meio das torturas que dilaceraro os msculos e quebraro os ossos". 
     O torturador, que tem pai, filho, esposa, amigos, vida pblica, aquele que faz compras, viaja de frias, se irrita no trnsito, paga impostos, poupa, vota, protesta, enfim, que planeja o futuro, pensa no seu gesto? Ou apenas cumpre ordens? Executa uma rotina trivial sem distinguir o certo do errado? Vive na banalizao do mal sem questionar moralmente os efeitos do que pratica? 
     As respostas levam a uma direo: a tortura no  apenas a ferramenta de um poder instvel, autoritrio, que necessita da violncia impensvel para se firmar, ou uma aliana sdica entre facnoras, estadistas psicopatas, lideranas de regimes que se mantm pelo terror, e seus comandados. Muitas vezes, aparenta ser uma ao de um grupo isolado. No. A tortura  patrocinada pelo estado. At mesmo regimes democrticos que priorizam o bem social, defendem a liberdade e a igualdade, at eles promovem a tortura. 
     O regime do libertador e heri de guerra general francs Charles de Gaulle torturou inimigos argelinos. O regime parlamentar ingls, com seus sditos da rainha, torturou acusados de ligao com o Exrcito Republicano Irlands (IRA). Criou tcnicas e instrumentos, como a "geladeira"  sala branca blindada, com variaes de temperatura, luz intermitente e msica 24 horas, em que um preso fica isolado. O DOI-Codi do Rio de Janeiro tinha uma dessas. At os Estados Unidos, a nao defensora do ideal do mundo livre, torturam na sua guerra particular, ou vingana pessoal, contra o que designam terror. 
     No  o agente fulano, o oficial sicrano, quem perde a mo.  a instituio, e sua rede de comando hierrquica, que tortura. A nao patrocinadora da dor infligida. O poder, emanado do povo ou no, suja as mos de sangue. 
     No dia 20 de janeiro de 1971, seis agentes da Aeronutica invadiram a minha casa no Rio com metralhadoras e levaram meu pai, Rubens Beyroclt Paiva, ex-deputado do PTB, cassado pela ditadura em 1964, para a Base Area do Galeo. Uma enviada do Chile, a professora Ceclia Viveiros de Castro, presa no aeroporto, havia ligado pouco antes para ele, dizendo que lhe trazia cartas e documentos de exilados brasileiros. Meu pai auxiliava, como muitos no Brasil, a fuga de perseguidos pela ditadura, escondia lideranas banidas, socialistas ou comunistas, em casa, ajudava financeiramente estudantes cassados. Como Jos Serra, ex-presidente da UNE, um maltrapilho esfomeado que perambulava por Paris depois de expulso do Brasil. 
     Meu pai apanhou assim que chegou  III Zona Area. Levou uma coronhada de uma submetralhadora, desferida pelo brigadeiro Joo Paulo Burnier, que estourou sua cartida, segundo a professora. Ambos foram transferidos no assoalho de um carro no dia seguinte para a sede do DOICodi, no quartel do I Exrcito. Foram obrigados a ficar em p de capuz com as mos para cima durante horas. 
     Ceclia o ouviu gritar, soletrar seu nome inmeras vezes. Foi torturado at a morte. H 42 anos convivo com essa informao bloqueada por uma censura nos pensamentos. Quando, por algum deslize, aparece na imaginao a imagem do meu pai em um pau de arara, ela logo  reprimida. No combina. No d para visualizar. Meu pai era um homem calmo, bom, engraado, frgil. E vaidoso. O que mais lembram dele? Da gargalhada, que fazia tremer a casa. Fumava charutos. Gostava de comer do melhor. De viajar. Gostava de Paris. Chegou a morar l, aos 20 anos, a uma quadra do Sena. Passou um ano na Europa, com os trs irmos, em 1947, para testemunhar a reconstruo de uma terra arrasada, o que mudou a sua viso de mundo. 
     Falava ingls, francs e alemo. Haroldo de Campos foi seu amigo de escola. Antonio Cndido, um dos seus mentores polticos. Foi scio de Samuel Wainer no ltima Hora. Antonio Callado, os irmos Millr e Hlio Fernandes, Fernando Gasparian, Fernando Henrique Cardoso, Paulo Francis e Bocayuva Cunha eram presenas constantes na mesa de pquer. Danuza Leo, a bailarina Dalal Achcar e Lygia Fagundes Telles faziam parte da rodinha. Como o diplomata Marclio Marques Moreira e o banqueiro Walther Moreira Salles. Imaginar este sujeito boa-praa, aos 41 anos, nu, em um pau de arara, levando choques aos gritos de "Fala, comunista, safado! Terrorista!", apanhando at a morte... No d. No encaixa. 
     Como no d para imaginar o sbrio, calvo e sorridente jornalista Vladimir Herzog em um pau de arara. Nem outros dois jornalistas, Rodolfo Konder e Paulo Markun, nem universitrios, nem professores (como os meus do colegial, Benauro Roberto de Oliveira, de histria, e Luiz Roncari, de literatura). Nem a presidente Dilma. Muito menos Carlos Alexandre Azevedo, que se matou em fevereiro, aos 40 anos  tinha apenas um 1 ano e 8 meses quando foi arrancado de sua casa e torturado na sede do Deops paulista, onde seus pais, o jornalista Dermi Azevedo e a pedagoga Darcy Andozia Azevedo, ficaram presos. 
     Relatos dizem que meu pai pedia gua a todo momento, enquanto era torturado. No final, banhado em sangue, repetia apenas o seu nome. Por horas. "Rubens Paiva. Rubens Paiva. Rubens Paiva..." Quem detalhou isso para VEJA (edio de 3 de setembro de 1986) foi Amilcar Lobo, ex-mdico, que o viu no DOI-Codi do Rio de Janeiro: "Ele era uma equimose s. Estava roxo da ponta dos cabelos  ponta dos ps. (...) Eu nunca havia presenciado um quadro desse tipo. Aquele homem levara uma surra como eu nunca vira. Fiquei na cela com ele uns quinze minutos. Estava consciente. No gemia. Disse s duas palavras: Rubens Paiva". 
     Se a tortura no faz sentido,  ineficiente, por que ento  presena cativa e devastadora na nossa histria? Graas  impunidade garantida por lei. Tambm bancada pelo estado, que a quer aliada, que no se livra do moedor de carne, pois interessa t-la por perto. O governo  Obama no fechou Guantnamo. Voc se lembra de algum agente brasileiro acusado de tortura ter sido preso? Quem torturou at a morte o meu pai foi absolvido pela Lei da Anistia. Foram depois promovidos e aposentados. Sabe quem so? Amilcar Lobo citou o nome do coronel Jos Ney Fernandes Antunes. O tenente Armando Avlio Filho, do Peloto de Investigaes Criminais (PIC), foi quem lhe disse depois que meu pai fora morto. Francisco Leite Chaves, procurador-geral da Justia Militar, acusou o coronel Ronald Jos da Motta Batista Leo, o subtenente Ariedisse Barbosa Torres, o major Riscala Corbage, o segundo-sargento Eduardo Ribeiro Nunes e o capito de cavalaria Joo Cmara Gomes Carneiro como responsveis pela tortura e morte do meu pai. Um ofcio do dia 22 de janeiro de 1971 encontrado pelo jornalista Jason Trcio indica o major Francisco Demiurgo Santos Cardoso como "major-chefe do DOI/I Ex". 
     As agendas do meu pai foram entregues ao major Jos Nogueira Belham, segundo ofcio encontrado recentemente na casa de outro oficial do DOI, coronel Molinas Dias. De Belham, sei at o endereo, no bairro do Flamengo, no Rio. O jornal Correio Braziliense descobriu recentemente que seu filho, Ronaldo Martins Belham,  diretor adjunto da Agncia Brasileira de Inteligncia (Abin). Um herdeiro da mquina de moer carne no crebro do poder. 
     
Marcelo Rubens Paiva
 escritor e jornalista, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e autor de Feliz Ano Velho, No s Tu Brasil, Malu de Bicicleta e As Verdades que Ela No Diz, entre outros livros.


3. O GERME DO MESSIANISMO

FIGURA NACIONAL
28 de maro de 1979
A determinao do recm-empossado governo de Joo Figueiredo de sufocar os grevistas do ABC  180.000 trabalhadores haviam cruzado os braos, num claro desafio  ditadura  alcanou sua mxima temperatura com a interveno federal no Sindicato dos Metalrgicos de So Bernardo do Campo e a destituio de seu presidente, Luiz Incio da Silva. Reconhecido pelos militares como o smbolo do movimento operrio, Lula se tornava "cada vez mais uma figura de relevo nacional", conforme sublinhou VEJA na primeira reportagem de capa que dedicou a ele. A edio trazia uma entrevista com o futuro ocupante do Palcio do Planalto.
TRECHO VEJA  Agora, depois da interveno, que balano voc faz do que aconteceu?
Lula  A greve foi uma demonstrao de maturidade. Tenho certeza de que foi algo mais significativo do que os movimentos de antes de 1964. Tenho certeza de que todos lembraro, por muitos anos, as assembleias realizadas durante a greve. Veja a campanha de arrecadao de fundos, em solidariedade ao movimento:  uma demonstrao da justia do nosso movimento.
VEJA  A interveno no poderia ter sido evitada?
Lula  Tnhamos conscincia de que mais dia menos dia a interveno viria. Mas nosso trabalho tinha de ser feito. Estou com a conscincia tranquila. Eu sei que hoje posso contar com o respeito dos 80.000 trabalhadores da minha base que estiveram presentes s assembleias."
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Houve um tempo, muito antes do mensalo, no qual Lula representava a esperana de uma esquerda democrtica  mas ele nunca entendeu o verdadeiro significado do jogo da democracia.
FRANCISCO WEFFORT

     Quando Lula foi destitudo da presidncia do Sindicato dos Metalrgicos de So Bernardo do Campo, em 1979, era difcil entend-lo como personagem seminal na histria da transio para a democracia. Eram tempos de incerteza, de imensas contradies. Em 1974, o MDB, at ento uma oposio meramente simblica, venceu as eleies para o Senado em quase todo o pas. 
     Mas havia lados mais sinistros nesse ambiente poltico: em 1975, o jornalista Vladimir Herzog fora assassinado, depois de tortura, nas dependncias do II Exrcito. No ano seguinte morreu ali, tambm sob tortura, o operrio Manoel Fiel Filho. Em 1976, foi a vez da "chacina da Lapa", em que foram mortos vrios dirigentes do PCdoB.  verdade que, no comeo de 1979, o general Joo Baptista Figueiredo tomou posse no governo federal e sinalizou para uma abertura poltica que ocorreria em breve. Mas o atentado do Riocentro, que visava a fechar a mnima abertura existente, ocorreu em abril de 1981. Muitos sentiam que o pas estava no incio de um caminho de muitas esperanas, mas que poderia ser paralelamente de muitas decepes. O novo sindicalismo, do qual Lula j era, em 1978, a figura mais notvel, deu a sua contribuio para ampliar o ar respirvel no Brasil. Por mais escuras que chegariam a ser, trinta anos depois, as sombras do mensalo,  difcil compreender a nova democracia brasileira sem Lula, o PT e o novo sindicalismo. O Brasil dessa travessia da ditadura para o estado de direito  um exemplo interessante na histria das democracias   a prova, paradoxal, de que nem sempre elas nascem de democratas. 
     O movimento do ABC em 1978 e 1979 trouxe a novidade das grandes assembleias de trabalhadores, indcio da fora de expanso de um novo sindicalismo que j se havia feito anunciar dez anos antes, nas greves de Osasco e Contagem. Diferentemente do que ocorria no perodo populista e, depois, no militar, surgiram na abertura para a democracia sindicatos independentes e combativos.  certo que agora, na democracia construda depois de 2002, os sindicatos voltaram a ser dependentes de partidos, governos e, particularmente, de recursos pblicos. Mas, naqueles tempos do autoritarismo militar do ps-1964, o fato de trabalhadores de um grande sindicato erguerem os braos em um estdio de futebol para votar tinha um aroma de liberdade. No teria sido possvel perceber algum messianismo poltico j naqueles primeiros anos da transio democrtica? 
     Sim. O PT estava nascendo sob a liderana direta de Lula, que em 1972 entrara como secretrio para a diretoria do sindicato, seis anos antes da greve que o tornaria um lder respeitado. Nisso havia um messianismo em germe, que os contemporneos enxergavam apenas como um ornamento apenso ao carter de massas da luta. Mais visvel era a afinidade do novo sindicalismo com os movimentos de opinio. Naquela poca, era simples perceber afinidades democrticas entre todos os grandes movimentos, desde as eleies senatoriais de 1974, passando pelas greves de 1978 e 1979, chegando  campanha das Diretas, envolvendo todos os movimentos grevistas que continuaram a acontecer, bem como as eleies parlamentares at a campanha da Constituinte, em 1988. To distantes na histria passada do pas, os temas da liberdade poltica e da igualdade social pareciam confluir para os mesmos caminhos. 
     Os que estavam do lado de c, contra o regime militar, se supunham todos democratas. Alguns tinham uma memria de lutas democrticas, em geral filiados a partidos no passado. Outros poderiam ser tidos como conversos  democracia, vindos de frustradas tentativas de luta armada de alguns grupos de esquerda. Havia mesmo, embora em pequeno nmero, os que apoiaram o regime militar de 1964 e depois se decepcionaram. As oposies eram um amplo movimento de mltiplas tendncias. As diferenas se tornariam mais claras depois. No por acaso, a "Constituio Cidad", como a designou Ulysses Guimares, foi considerada por muitos uma obra de esprito corporativista, uma espcie de cahier de dolances, registro das queixas sociais do pas. 
     Como nas oposies ao regime militar, tambm nas origens do PT o tema fundamental era a democracia. Lula e muitos petistas atribuam  democracia um sentido radical, social, no apenas institucional. Queriam uma democracia dos de baixo, dos trabalhadores, uma democracia do povo. Na ambiguidade de sentido que envolve essas palavras, em alguns casos a democracia que reivindicavam diluiu o significado das instituies de defesa da liberdade poltica. Mais de uma vez, esse discurso correu o risco de relativizar o imprio da lei e das instituies de defesa dos direitos dos indivduos e das minorias. 
     Ainda que tenha se empenhado, junto com os liberais e os democratas, pelo restabelecimento da democracia. Lula foi sempre fiel a um sentimento corporativista que seus adversrios autoritrios da hora perceberam melhor do que seus aliados liberal-democratas. Privado de uma viso universal do estado, Lula nunca entendeu o verdadeiro significado das regras do jogo na democracia. Para ele, a democracia  apenas o regime que permite que a maioria se defenda. Embora adversrio da tradio getuliana, ele sempre foi fiel ao corporativismo no qual se formou como sindicalista. No por acaso, nos incios do PT, muitos dos seus adversrios acreditaram que Lula fracassaria como poltico. Na realidade, tornou-se um poltico fundamental, nem por isso menos corporativista. Criou um partido,  certo, mas um partido fiel a seu personalismo.  
     Embora contra o regime militar, ele fazia questo de diferenciar-se dos liberais e democratas que lutavam pela Constituinte. Numa certa conjuntura, tomou um tempo considervel at aceitar a necessidade de uma Constituinte. Sua razo para tal era estritamente corporativista: "O AI-5 dos trabalhadores  a CLT". E, quando a Constituinte finalmente chegou, Lula, como lder do PT no Parlamento, colocou a questo: deveriam os parlamentares petistas assinar a nova Constituio ou no? Decidiram assinar no temor de que algum adversrio pudesse, no futuro, contestar os direitos constitucionais do PT. E s o fizeram depois de declarar suas muitas ressalvas a diversos pontos da nova Constituio. Ou seja, queriam participar da democracia, mas sem maiores compromissos. 
     Lula e o PT, como depois a CUT, sempre se opuseram ao "imposto sindical", que, como a CLT em geral,  uma inveno de 1943, do perodo ditatorial de Getlio Vargas, inspirada na Carta del Lavoro, de Mussolini, na Itlia. O "imposto sindical"  correspondente a um dia de salrio do empregado, por ano, devido ao Ministrio do Trabalho. Mudou de nome h alguns anos, passando a chamar-se "contribuio sindical", mas continuou o de sempre. Recolhido pelo ministrio,  distribudo s confederaes, federaes e sindicatos, segundo critrios de representatividade medida pelo nmero de sindicalizados. 
     Na poltica, o "imposto sindical" sempre foi criticado, desde as origens, por comunistas, socialistas, liberais etc., porque mantinha a subordinao poltica dos sindicatos aos partidos e criava uma fonte de recursos para a corrupo dos sindicalistas. Em 1987, j tnhamos milhares de sindicatos urbanos no pas. quantidade que s aumentou nas dcadas seguintes. So, em geral, "sindicatos cartoriais", que supostamente "representam" pequeno nmero de empregados de muitos pequenos municpios. Formam um imenso cabide de empregos. Lula e o PT criticaram isso tudo, mas, depois de dez anos de governo na Repblica, nada fizeram para mudar. 
     Lula sempre foi um pragmtico. Nele, mesmo o corporativismo foi mais um sentimento que uma ideologia. Foi seduzido pela imagem do poder, em qualquer de suas formas, em Chvez, em Sarkozy, em Fidel etc. Embora tenha se oposto s tradies populistas, acabou por transformar-se em um seguidor dos preceitos mais tradicionais da poltica brasileira. Defendeu a retomada da democracia, mas nem sempre foi capaz de aprimor-la quando chegou ao poder. Embora tenha combatido as heranas polticas de Getlio Vargas, transformou-se, em sua prpria atividade, em uma espcie de filhote de Getlio.
     
Francisco Weffort
 professor titular (aposentado) da USP e professor colaborador da UFRJ. Foi professor visitante no Woodrow Wilson Center, em Washington, e na Universidade de Notre Dame (Indiana, Estados Unidos) e ministro da Cultura no governo FHC.  autor de O Populismo na Poltica Brasileira, Formao do Pensamento Poltico Brasileiro e Espada, Cobia e F  As Origens do Brasil


4. A DIFCIL CICATRIZAO
O atentado do Riocentro foi um rombo na abertura poltica. Contudo, no tirou o pas da trilha democrtica.

O TIRO SAIU PELA CULATRA
6 de maio de 1981
Na noite de 30 abril de 1981, duas bombas explodiram no Riocentro, durante um show em homenagem ao Dia do Trabalho. Um dos artefatos acabou detonado dentro do Puma onde se encontravam os encarregados da ao: o sargento Guilherme Pereira do Rosrio, morto ali mesmo, e o capito Wilson Lus Chaves Machado, que sobreviveu. Ambos eram do DOI-Codi. Planejado pela ala do regime contrria  abertura, o ato foi considerado neste ano pela Comisso Nacional da Verdade como "um tiro pela culatra". Depois desta capa, VEJA voltaria ao assunto outras vezes, mas sua primeira reportagem j trazia elementos que evidenciavam as contradies da verso oficial para o episdio.
TRECHO "Se o sargento tinha o artefato nas mos, (...) surgem trs hipteses. Na primeira (...), ele no sabia do que se tratava. Na segunda, poderia ter recolhido um objeto que lhe despertasse suspeitas (...). Na terceira, o sargento sabia que tinha nas mos uma bomba, levada com seu conhecimento para o carro. As duas primeiras possibilidades so vistas com restries por peritos. (...) A terceira hiptese (...) no elimina restries que os peritos fazem ao que seria a imprudncia dos dois. Alm disso, se estavam em misso do DOI-Codi, no tinham por que carregar bombas."
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     Mais de trs dcadas depois do atentado ao Riocentro, o pas continua sem saber exatamente o que aconteceu naquela noite de 30 de abril de 1981. O caso passou por dois inquritos policial-militares: um logo depois do episdio e o outro em 1999. Ambos terminaram em arquivamento. O segundo chegou a apontar que havia provas para indiciar quatro oficiais: os dois participantes da ao, o hoje coronel Wilson Machado, que sobreviveu ao ato terrorista, e o sargento Guilherme do Rosrio, que perdeu a vida no local; o general da reserva Newton Cruz, ex-chefe da Agncia Central do SNI; e o coronel Freddie Perdigo, chefe da agncia do SNI do Rio em 1981, que morreu em 1997. Seu arquivamento se deu com base na Lei da Anistia. 
     Em entrevista a VEJA, em 1991, a viva de Rosrio disse que o marido pretendia se desligar do DOI-Codi. "Foi uma queima de arquivo", declarou. Dois anos depois, Sueli e seus filhos entraram com ao judicial pedindo indenizao. Perderam, aps dez anos de luta na Justia. As exploses do Riocentro representaram um rombo na abertura poltica de Joo Figueiredo  mas foram incapazes de tirar o pas da trilha que culminaria na campanha das Diretas J em 1984. 


5. UM BRADO RETUMBANTE
Nos ltimos 29 anos, o pas foi s ruas em trs momentos decisivos: na campanha das diretas, no Fora Collor e nas revoltas de junho. Essas manifestaes tiveram origem no desencontro entre os polticos e os cidados, na surdez da poltica em relao  estridente voz da populao. 
RINALDO GAMA

	A expresso  latina, tem origem incerta e arrasta consigo uma ideia desconcertante: vox Populi, vox Dei. No, Deus no perdeu a voz  apenas a confiou a um sujeito histrico, plural e frequentemente confundido com a multido: o povo. Ns, o povo.

     Se democracia  do grego demokrata (de dmos, povo, mais krata, fora, poder)   "governo do povo", por que os governantes se alarmam demasiado quando ns, o povo, voz de Deus, samos s ruas, em protesto poltico? 
     Se repblica  do latim res publica   "coisa pblica", por que o estado estranha tanto quando ns, o povo, os donos da coisa etc., tomamos as praas, idem, idem, idem? 
     Simples: porque sabem que, se as ruas e praas se incendeiam,  sinal de que eles, governantes, o estado, j no so sinnimo de povo, de coisa pblica. E esse fato tem um cristalino motivo: o governo do povo virou governo de poucos. Aquilo que deveria ser pblico  o bem comum, cuja construo  a razo primeira da poltica  se tornou privado. 
     Com graus, pretextos e resultados diferentes, o Brasil experimentou tudo isso, nos ltimos 29 anos, em trs momentos de inflexo de sua sociedade: na campanha das diretas (1984), no movimento "Fora Collor" (1992) e nas manifestaes de junho passado (todos herdeiros da clebre Passeata dos Cem Mil, realizada em 1968). Distintas quanto aos seus propsitos imediatos, essas autnticas marchas da sensatez  descontada a participao dos baderneiros  tiveram a uni-las um horizonte de passos mais largos do que aqueles que lhes deram impulso. E todas foram marcadas por um mesmo agente: a vontade popular. 
     Um exemplo do desconforto dos polticos sempre que h estridncia da maioria nas ruas pode ser pinado da fase das diretas. Em 1984, logo depois do comcio gigante realizado na S, em So Paulo, um deputado federal da cpula do PDS, o partido governista  cujo nome no se escrever aqui para no traz-lo de volta do esquecimento , criticou o atendimento da vontade popular, saindo-se com esta: "Hitler fez o nazismo com 100% do povo a seu favor". 
     VEJA, em sua edio de 1 de fevereiro, tratou de corrigi-lo: ainda que a tese tivesse a sua lgica (pois maiorias podem errar), o Fhrer s chegara ao cargo de premi, em 1933, pelo sistema indireto, "no bojo de uma coligao parlamentar, j que o partido nazista era minoritrio". 
     "H pouco me perguntaram quantas pessoas esto nesta praa  300.000? 400.000? A resposta  outra: aqui esto 130 milhes de brasileiros", discursou, emocionado, o ento governador de So Paulo, Franco Montoro, que dividiu a S com outros nomes da poltica (Tancredo Neves, Mrio Covas, Leonel Brizola e dois futuros presidentes, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Incio Lula da Silva), da MPB (Chico Buarque, Milton Nascimento), do teatro e da televiso (Fernanda Montenegro, Irene Ravache) etc. Para alm do carter pluripartidrio e multiartstico, chamava ateno no comcio a presena de exrcitos de annimos, de todas as classes sociais. Ali estava representada, se no a totalidade dos brasileiros, como proclamara Montoro, certamente a maioria da populao. 
     Apesar das ruidosas concentraes ocorridas pelo pas afora, a proposta de eleio direta para presidente da Repblica seria derrotada no Congresso exatos trs meses aps o evento da Praa da S, em 25 de abril de 1984  mas o caminho para a redemocratizao se tornara irreversvel. 
     Irreversvel a tal ponto que o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960, Fernando Affonso Collor de Mello  como se disse, a maioria tambm pode errar , acabaria arrancado do Planalto no por um golpe gestado nos quartis, e sim pela vontade popular, expressa, de novo, pela voz das ruas. O povo pe, o povo dispe. Dessa vez, em lugar de acertos pluripartidrios, a mobilizao ganhou a cor dos jovens, os caras-pintadas, arregimentados por entidades como a Unio Nacional dos Estudantes (UNE). 
     Aprovado o encaminhamento do impeachment, Collor acabaria renunciando ao cargo em dezembro de 1992. VEJA participou diretamente de todo o processo, deslanchado sobretudo aps a publicao da histrica entrevista do irmo do presidente, na edio de 27 de maio de 1992. 
     Enquanto as diretas foram derrotadas no Congresso e se passaram quatro meses entre o incio do rol de denncias contra Fernando Collor e seu afastamento da Presidncia da Repblica, os protestos de junho de 2013 obtiveram vitria em algumas de suas reivindicaes originais num espao de poucas semanas (o aumento da tarifa de nibus em So Paulo, o gatilho de tudo, durou 22 dias). 
     A velocidade da resposta foi diretamente proporcional  rapidez com que as manifestaes ganharam demandas  fim da corrupo, derrubada da PEC 37 (que limitaria o poder de investigao do Ministrio Pblico), melhora na educao e no sistema de sade, moralizao nos gastos com a Copa etc. , cresceram em volume de gente nas ruas e se espalharam pelo pas. Perplexa, a presidente Dilma Rousseff chegou a ficar quase duas horas acuada no interior do Palcio do Planalto, enquanto do lado de fora uma multido se exasperava contra "tudo isso que est a". Um "choque de democracia"  para usar o ttulo do e-book do professor Marcos Nobre, da Unicamp, sobre as revoltas de junho. 
     Formado  margem dos partidos e de entidades de classe ou afins, o movimento possua uma liderana to difusa quanto o seu arsenal de reivindicaes  o que dificultou ainda mais a reao dos polticos de todos os matizes. Dilma fez pronunciamento nacional em cadeia de rdio e TV e convocou governadores e prefeitos para firmarem aes contra os males reclamados. O Congresso, atnito, correu para derrubar a PEC 37. 
     Pode-se baixar a guarda? No. O caso do deputado-presidirio Natan Donadon  cuja preservao do mandato teve voto favorvel da Cmara  d a impresso de que os polticos seguem surdos a uma certa vox. 

"O POVO, UNIDO..."
Avassaladoras, as trs manifestaes sociais de maior impacto na recente histria poltica do Brasil receberam de VEJA uma cobertura atenta, extensiva e participativa. O movimento das diretas, o "Fora Collor" e os protestos de junho de 2013 resumem o pas.

1 de fevereiro de 1984
EU QUERO VOTAR PARA PRESIDENTE
TRECHO
"A histria das manifestaes polticas da sociedade brasileira ganhou (...) um novo marco de grandiosidade. (...) Amontoadas por toda a Praa da S, 200.000 pessoas gritavam: "Um, dois, trs / Quatro, cinco, mil / Queremos eleger / O presidente do Brasil!"

2 de setembro de 1992
A GUERRA DO IMPEACHMENT
TRECHO
"Execrado pela multido (...), Fernando Collor passou a semana na situao de um cadver esfriando no caixo. (...) Seus prprios ministros e secretrios de estado nada afirmam quanto  honra do (...) presidente da Repblica. 

26 de junho de 2013
OS SETE DIAS QUE MUDARAM O BRASIL
 muito fcil quebrar o vidro que separa a ordem do caos. (...) Podem se passar dcadas sem que nada mude, mas uma semana pode concentrar dcadas de mudana. Foi o que se viu no Brasil na semana passada.

QUATRO MESES DE AGONIA
VEJA dedicou dezessete capas (a maioria delas reproduzida abaixo)  crise poltica que apeou Fernando Affonso Collor do Palcio do Planalto
27/5/1992  PEDRO COLLOR CONTA TUDO
17/6/1992  O GOVERNO NO TERMINAR LIMPO
24/6/1992  COLLOR SABIA
1/7/1992  NO QUE VAI DAR A CRISE
8/7/1992  A PROVAS
15/7/1992  O PISTOLEIRO DO PLANALTO
29/7/1992  O CRCULO SE FECHA
5/8/1992  A FARSA URUGUAIA
19/8/1992  ANJOS REBELDES
26/8/1992  O BRASIL RENUNCIA A COLLOR
9/9/1992  O JARDIM DO MARAJ DA DINDA
23/9/1992  CAFAJESTADAS NA FASE FINAL
30/9/1992  CHEGOU A HORA
7/10/1992 CAIU!


6. EU VI MEU AV SAIR DA VIDA E ENTRAR PARA A HISTRIA
ACIO NEVES

Equilibrando-se entre o patrimnio coletivo e a memria pessoal, o neto de Tancredo Neves traz para o presente o curto porm decisivo perodo que vai da vitria do poltico mineiro no Colgio Eleitoral, ocorrida em janeiro de 1985,  sua morte antes da posse na Presidncia da Repblica, apenas trs meses depois.

 Olhando para trs,  difcil acreditar que tantas mudanas tenham ocorrido em to pouco tempo, somente dois anos: 1984 e 1985. Tive o privilgio de, ainda muito jovem, com 24 anos, acompanhar de perto aquele perodo decisivo na vida de nosso pas, e de, com ele, aprender vrias lies  uma, especialmente importante: a de que cada gerao tem seu compromisso com a histria. Por isso,  necessrio que os lderes estejam sempre  altura dos desafios de seu tempo. 

     Foi fundamental para o Brasil, naquele momento, contar com homens como Tancredo Neves, meu av, e Ulysses Guimares, que, entre tantos outros, nos conduziram, com grandeza, naquela travessia. 
     A intensidade daqueles dias me acompanha at hoje  na memria e no corao. Primeiro, as viagens pelo Brasil, os comcios das Diretas e a frustrao pela no aprovao da emenda Dante de Oliveira. 
     Depois, os dias que se seguiram  renncia de Tancredo ao governo de Minas, quando me mudei com ele para um apartamento na quadra 206 Sul em Braslia, onde fui espectador privilegiado da memorvel articulao poltica que conseguiu vencer vinte anos de arbtrio. 
     Fazia-se poltica pelo Brasil. 
     Foi um trabalho de artfice, minuciosamente planejado por grandes brasileiros para que a mobilizao nacional daqueles dias pudesse garantir, de alguma forma, aquele que era nosso maior objetivo: o fim do autoritarismo. Nosso reencontro com a liberdade e a democracia. Trabalho que culminou no lanamento de Tancredo como candidato das oposies  Presidncia da Repblica e em sua vitria no Colgio Eleitoral. 
     Trs meses depois, ele morreria. Apenas trs meses. 
     Trs meses em que testemunhei, dia e noite, a luta de um homem em defesa de seu povo. Trs meses em que testemunhei, sem saber  porque muitas vezes s o tempo nos d a compreenso do que vivemos , um homem cumprindo seu destino. 
 a minha lembrana pessoal desse perodo, entre a eleio e a morte de Tancredo, que, a convite de VEJA, tento dividir com voc, leitor, quase trinta anos depois. Fao isso sabendo como  difcil encontrar o equilbrio quando a histria coletiva ainda  memria pessoal. 
     A vitria no Colgio Eleitoral foi fruto de uma bem-sucedida estratgia conduzida por diversos e diferentes atores, unidos pelo objetivo de pr fim  ditadura. Estratgia que incluiu decisiva mobilizao popular e uma paciente costura de bastidor. 
     
     O 15 de janeiro de 1985 amanheceu diferente em todo o pas. Carros buzinavam em todas as cidades, bandeiras ocupavam ruas.  noite, no Rock in Rio, Cazuza embrulhou-se na bandeira brasileira, saudou a democracia recm-conquistada e cantou Pr Dia Nascer Feliz. 
     Para grande parte das pessoas, a transio democrtica terminava ali, com a eleio de Tancredo. Mas, por mais que esse fosse um marco fundamental, sabamos que no era o fim do processo. Ainda existiam focos de resistncia no regime militar, e fontes do presidente eleito o aconselhavam a ser prudente e manter a vigilncia. A prpria VEJA, em 2005, revelou como, enquanto o pas comemorava, uma delicada operao poltica mantinha seu curso nos bastidores. 
     A viagem ao exterior realizada por Tancredo e os encontros com chefes de estado cumpriram um papel estratgico que muitos no perceberam: o de tornar nosso processo de redemocratizao irreversvel. Ao receberem aquele senhor baixinho, inteligente e bem-humorado, simbolicamente, as antigas democracias reconheciam e saudavam a nova democracia brasileira. 
     Voltamos ao Brasil e nos mudamos para a Granja do Riacho Fundo, onde os trabalhos continuaram. 
     Tancredo sabia que repousava sobre seus ombros a responsabilidade pela transio democrtica. Tinha conscincia de que o pas caminhava em terreno ainda frgil. Temia especialmente que a percepo sobre alguns problemas de sade que estavam surgindo pudesse, naquele momento, servir como pretexto para as foras polticas que buscavam o retrocesso. 
     Ele no podia correr riscos. Cada dia vencido era mais um passo na direo da to sonhada democracia. Provavelmente, por isso, descuidou-se tanto de sua sade. Tinha uma misso a cumprir, e a cumpriria. 
     Em 14 de maro, vspera da posse, seguimos para a missa no Santurio Dom Bosco, em Braslia. Ele j no se sentia bem. Voltamos para casa e, com a piora de sua sade, chamamos os mdicos. 
     Sentei-me a seu lado na cama e estvamos os dois sozinhos, quando ele me olhou com intensidade e disse: "Chame o Z Hugo (Jos Hugo Castelo Branco, que teria sido seu ministro da Casa Civil) e pea a ele que traga os atos de nomeao do ministrio". Sugeri que deixasse para o dia seguinte. Ele insistiu. Os atos chegaram. 
     Com muita dificuldade, com as mos trmulas, ele os assinou um a um e mandou que fossem imediatamente publicados. S mais tarde entendi por qu. No dia seguinte, quando ficou claro que ele no tomaria posse, ainda teria havido tentativas de criar dificuldades para a posse do vice-presidente, Jos Sarney. Tarde demais. Graas ao ltimo esforo de Tancredo, o Brasil j contava com um novo ministro do Exrcito, que detinha o controle da tropa e era leal ao novo governo democrtico. 
     Os mdicos chegaram e nos informaram que Tancredo precisaria ser internado e operado imediatamente. Sugerimos que fosse levado a So Paulo. Eles nos disseram que no se responsabilizariam e que no o acompanhariam na viagem. Alegaram que ele no tinha condies de ser deslocado e ressalvaram que, por se tratar de um problema superficial, Tancredo poderia tomar posse no dia seguinte. 
     Ele nunca tomou posse. 
     O pas conhece a sucesso de erros e irresponsabilidades que se seguiram e que, ainda hoje, me revoltam como brasileiro e me ferem como neto. 
     Ao entrar no hospital, ele se dirigiu a seu filho, meu tio, Tancredo Augusto e disse: "Fiquem atentos. Lembrem-se do que aconteceu com Juscelino e Jango". 
     Esse comentrio, por si s, revela a tenso que vivamos naqueles dias. Preocupado com o que poderia acontecer caso no tomasse posse, ele insistiu para no ser operado naquele momento: "Vocs precisam me ajudar a conseguir tomar posse. Depois, podem fazer o que quiserem comigo". 
     No hospital, sua nica preocupao era o pas. Ciente da grande frustrao popular e das dificuldades que Jos Sarney poderia estar enfrentando, ditou-me uma carta para ser encaminhada ao presidente em exerccio e que pudesse ajudar a legitim-lo, naquele momento, no exerccio da Presidncia da Repblica. Foi o ltimo documento que ele assinou. 
     Passei todos aqueles dias e noites no hospital. Ia diariamente  UTI, tentava anim-lo com notcias otimistas. Numa dessas ocasies, ouvi dele suas ltimas palavras. Enfraquecido no leito, cansado, olhando para o infinito, resignado, ele disse: "Eu no merecia isso". 
     No merecia. O Brasil tambm no. 
     H uma passagem do Antigo Testamento, reproduzida na capa do extinto Jornal da Tarde na edio sobre sua morte, da qual sempre me recordo: "E o Senhor lhe disse: 'Eis a terra. Eu a darei  tua posteridade. Tu a viste com teus olhos, mas no passars a ela'". 
     Crescemos, ns, os netos, ouvindo de meu av o seu testemunho pessoal sobre os intensos momentos que ele vivera como personagem da histria nacional. "S se lembram de mim nas horas de tempestade", costumava dizer. 
     Relembrava especialmente os momentos que antecederam o suicdio do presidente Getlio Vargas. Ele jamais deixou de lado a grande admirao que nutria pelo ex-presidente, que, em suas palavras, havia chegado ao extremo de entregar a prpria vida por amor ao Brasil. 
     Descrevia, sempre emocionado, a presso daquelas horas e a comoo popular no enterro de Vargas, que entendia como autntica salvaguarda que impediu um golpe poltico. 
     Recorro a palavras que j foram escritas por um de ns para encerar este testemunho pessoal e dividir, com vocs, um pouco de minha saudade, afeto e respeito. 
     Mal sabamos  ns e ele  durante todos os anos em que, aps o almoo de domingo, ouvamos, com  ateno, seus relatos que, trs dcadas depois da morte de Vargas, uma outra multido, em torno de um outro caixo,  velaria o corpo de um outro presidente. 
     E que, por amor ao Brasil, ele  tambm deixaria a vida para entrar na histria.
Acio Neves  senador (PSDB-MG)
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NASCE A NOVA REPBLICA
16 de janeiro de 1985 
Depois de 21 anos de governos militares, um civil chegava  Presidncia da Repblica  eleito pelo mecanismo introduzido pela prpria ditadura, o Colgio Eleitoral. Ao longo de 33 pginas, a reportagem de capa de VEJA esmerava-se em desvendar, detalhadamente, os bastidores da costura poltica que tornou possvel a vitria de Tancredo Neves sobre Paulo Maluf, o candidato da situao. Foram dois meses de trabalho, nos quais a revista entrevistou 54 pessoas, num total de 150 horas de conversas. A histria secreta da sucesso relatada por VEJA era tambm a histria do nascimento daquilo que Tancredo chamou de Nova Repblica  o triunfo das foras democrticas sobre o autoritarismo. 

TRECHO "Entre janeiro de 1984, quando as primeiras multides comearam a rodear os palanques de onde se pedia a volta do sufrgio universal, e este janeiro de 1985, quando a oposio comea a se transformar em governo atravs do sistema de eleio que amaldioara, o pas mudou a tal ponto que o ilegtimo se tornou conveniente, o que se supunha ser um confronto inevitvel tornou-se um grande acordo e, num curioso trocadilho do presidente Joo Figueiredo, 'Tancredo never' tornou-se 'Tancredo Neves. 

ENCENAO NO HOSPITAL
O presidente eleito, no Hospital de Basede Braslia: VEJA revelou que os trajes e o cenrio da foto acima foram cuidadosamente escolhidos para enganar a opinio pblica sobre seu real estado de sade. Escreveu a revista na edio de 3 de abril de 1985: "No momento em que as fotos chegavam s mos da imprensa, os mdicos, desesperados, constatavam que Tancredo evacuava sangue".


7. UMA SUCESSO DE SEGREDOS
Em nove captulos e 33 pginas, a reportagem de VEJA publicada trs dias antes da vitria de Tancredo no Colgio Eleitoral desvendou todos os mistrios da disputa presidencial que ressuscitou o regime democrtico. 
AUGUSTO NUNES

     "Presidncia  destino", dizia Tancredo Neves a quem imaginava existir alguma rota segura para o corao do poder. Mas o destino d preferncia a quem lhe facilita o trabalho, usando com sabedoria o livre-arbtrio, ensina a edio especial de VEJA datada de 16 de janeiro de 1985 mas distribuda no dia 12  72 horas antes da vitria do candidato da oposio no Colgio Eleitoral. Nela se reconstitui em nove captulos, que somam 33 pginas, a caminhada que depositou o governador de Minas Gerais ao p da rampa do Palcio do Planalto, bruscamente interditada por sua morte. Parece um trepidante filme de ao com muitos momentos de suspense. O elenco  da melhor qualidade, mas nenhum dos atores ofusca o protagonista: um septuagenrio calvo, franzino e introspectivo que, desprovido de superpoderes, recorre  astcia para contornar as sucessivas pedras no caminho. 
     A mais extensa reportagem poltica publicada por VEJA provou que, naquele Brasil surreal da primeira metade dos anos 80, que j no era uma ditadura e ainda no se tornara uma democracia, s um Tancredo de Almeida Neves conseguiria materializar a faanha resumida nas seguintes linhas: "Nesta tera-feira, o mineiro Tancredo Neves, 74 anos, ser eleito presidente da Repblica pelos 686 integrantes do Colgio Eleitoral. (...) Pela primeira vez em 21 anos, um civil ocupar a chefia do governo brasileiro". S um Tancredo conseguiria avanar na direo do Planalto, sem tropeos nem tombos, percorrendo trilhas atulhadas de militares sensatos e generais incapazes de enxergar o que ocorria a um palmo do quepe, polticos sagazes e bisonhos caadores de votos, mentes brilhantes e perfeitas cavalgaduras, homens de bem e trapaceiros incurveis. S um Tancredo poderia ter sobrevivido a um ano singularssimo como 1984. 
     Entre janeiro, "quando as primeiras multides comearam a rodear os palanques de onde se pedia a volta do sufrgio universal", e dezembro, quando a oposio j se preparava "para se transformar em governo atravs do sistema de eleio que amaldioara", o conciliador extraordinariamente astucioso fez sempre a escolha certa na hora da encruzilhada. Porque "no se tiram os sapatos antes de chegar ao rio", esperou passar a campanha das Diretas J, esperou que as rachaduras no PDS governista se escancarassem, esperou que os lderes do PMDB induzissem Ulysses Guimares a desistir do sonho presidencial, esperou que o partido inteiro se convencesse de que a soluo estava no Palcio das Mangabeiras. S no fim de junho aceitou candidatar-se  sucesso de Joo Figueiredo, com o apoio da oposio e de um bloco de ex-governistas suficientemente numeroso para garantir um duelo eleitoral de verdade. 
     Na margem do rio, o candidato em campanha tratou de mostrar que "ningum vai ao Rubico para pescar". Escolheu como candidato a vice o senador Jos Sarney, que renunciara  presidncia do PDS. E, como "a escolha do adversrio quase sempre  mais importante que a escolha de aliados", escolheu Paulo Maluf para o duelo derradeiro. Especialista em mtodos eleitorais heterodoxos, o ex-governador paulista se julgava "imbatvel" em disputas indiretas. "Ele nunca enfrentou profissionais", avisou Tancredo. O candidato do PMDB sempre confiou na previso feita no fim de 1982 pelo senador Jorge Bornhausen, durante uma conversa com Jos Roberto Guzzo, diretor de redao de VEJA, e Elio Gaspari, diretor adjunto: "Muita gente dentro do partido no vai querer se associar ao repdio que o Maluf gera. O PDS racha", diz Bornhausen na pgina 33 da edio especial. (A pedido do senador, foram omitidas as razes do repdio, quase todas vinculadas ao Cdigo Penal.) Entre setembro e novembro de 1984, enfim, Tancredo definiu os atalhos que desmataria para livrar-se da assombrao recorrente na poltica brasileira: o golpe militar tramado para prorrogar o mandato de Figueiredo. 
     Ao lado de Etevaldo Dias, chefe da sucursal de Braslia, e dos reprteres Guilherme Costa Manso e Henrique Jos Alves, participei do levantamento jornalstico iniciado em 15 de novembro de 1984 e encerrado cinquenta dias, 54 entrevistas e 150 horas de conversa depois. S informaes confirmadas por mais de uma fonte se juntaram s colhidas paralelamente por Guzzo e por Gaspari (que, entre outros espantos, exumou o esqueleto golpista que acabara de ser sepultado longe dos olhos do pas). Algumas revelaes foram embargadas pelos informantes para poupar de constrangimentos antigos parceiros. No encontro com o ministro Mrio Andreazza, por exemplo, Tancredo e Antonio Carlos Magalhes no se limitaram a marcar uma conversa a dois quando o anfitrio, derrotado por Maluf na conveno do PDS, foi ao banheiro. "Isto no  coisa para amadores", murmurou ACM. "Melhor tratar disso sem ele", concordou Tancredo. Poucas e irrelevantes, tais omisses no fizeram falta  procisso de segredos revelados, ilustrada por fotos e charges em preto e branco. Destacadas pela dupla moldura, rimavam com um Brasil que havia tempos oscilava entre a sombra e a claridade. 
     A reportagem sobre a sucesso de 1985  muito mais que uma fonte de consulta para historiadores.  a histria definitiva em 33 pginas de revista.  

Augusto Nunes, colunista do site de VEJA,  era redator-chefe da revista em  1985.


8. RATOEIRA NO CRONGRESSO
A denncia do caso dos anes do Oramento melhorou o controle dos recursos pblicos no Legislativo.

     Foi a coincidncia entre a estatura fsica e o tamanho da tica que ostentavam o motivo pelo qual os deputados envolvidos num dos maiores escndalos do Congresso acabaram ganhando o apelido de "anes do Oramento". As revelaes trazidas  tona por VEJA, em reportagem de Policarpo Jnior, deflagraram um processo de depurao no Legislativo. Uma CPI cassou seis parlamentares e forou a renncia de outros quatro. O escndalo desencadeou ainda um conjunto de mudanas que tornou mais transparente o controle dos recursos pblicos no Legislativo. Tudo o que  decidido pelos parlamentares precisa agora passar por votaes pblicas no plenrio da comisso. O oramento aprovado fica na internet para quem quiser fiscalizar. 
     As emendas parlamentares foram idealizadas com a nobre funo de resolver problemas locais de municpios com oramento reduzido. A partir da indicao parlamentar, os recursos federais so investidos em obras pontuais ou compras. No Oramento atual, elas representam 6,7 bilhes de reais  o equivalente a uma cota de 10 a 15 milhes de reais por congressista.  essa montanha de dinheiro, envolta em uma fiscalizao frgil, que sempre atraiu a ganncia dos polticos. No esquema dos anes, os parlamentares recebiam propina de empreiteiras para destinar emendas s obras. Eles tambm embolsavam o dinheiro direcionando emendas a entidades de fachada abertas em nome de comparsas. O esquema era articulado em noitadas de usque na casa do deputado Joo Alves, o presidente da Comisso de Oramento e chefe da quadrilha, que morreu em 2004 sem ter passado um dia sequer na cadeia. 

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DINHEIRO DESVIADO
20 de outubro de 1993
Definir prioridades no Oramento da Unio ainda era uma atribuio relativamente nova no Parlamento quando VEJA revelou a existncia de um inslito esquema de corrupo instalado no corao do Congresso. Em uma entrevista impressionante, o economista Jos Carlos Alves dos Santos contou como ele e um grupo de deputados haviam montado um esquema de aprovao de emendas para desviar dinheiro pblico.

TRECHO VEJA  Como se rouba no oramento?
Jos Carlos  O parlamentar vai e consegue aprovar sua emenda no oramento. A acena para que uma empreiteira faa a obra, e recebe o dinheiro. A gente no consegue provar isso, mas  o esquema que todo mundo conhece. Isso existe.
VEJA  O que o senhor sabe?
Jos Carlos  Essas coisas eu via l na casa do Joo Alves (deputado do PFL da Bahia, que presidiu a Comisso do Oramento entre 1988 e 1989 e foi relator nos dois anos seguintes). Eu via aquelas reunies e depois eu mandava o papelucho dele, com o visto dele, com uma relao de emendas para aprovar. Todas as empreiteiras passavam l na casa dele com uma relao do que queriam colocar no oramento.


9. UM MEDO RENITENTE
Nos ltimos anos, as taxas de homicdio caram na capital paulista e no Rio, mas a violncia ainda assombra.

     Em 1999, foram assassinadas em So Paulo 5418 pessoas. E os sequestros comeavam a se transformar em uma praga; doze vtimas foram mantidas em cativeiro. Nesse cenrio, em maro daquele ano, os trs filhos do empresrio Jorge Paulo Lemann  ento com 7, 6 e 3 anos de idade  s no engrossaram a lista de sequestrados porque a blindagem do carro em que se encontravam resistiu aos tiros de um grupo de sequestradores. 
     No ano de 2002, quando o nmero de sequestros chegou a 184, a coluna Radar, de Lauro Jardim, noticiou que Lemann, um dos donos da InBev e atualmente o homem mais rico do pas, decidiu transferir sua famlia para a Sua. O empresrio pretendia assim garantir para os filhos uma vida normal, em um lugar no qual eles pudessem caminhar na rua ou andar de bicicleta sem virar alvo de bandidos. Catorze anos depois da ameaa sofrida pela famlia Lemann, os crimes de sequestro e as taxas de homicdio em So Paulo caram drasticamente. Mas o medo no. 
     So Paulo no vive mais o clima de guerra de 1999, em que quinze pessoas eram assassinadas por dia apenas na capital. No entanto, ainda se mata muito. Nos seis primeiros meses deste ano, 659 pessoas foram vtimas de homicdio. Em apenas doze dias mata-se em So Paulo mais do que em um ano inteiro na Sua. O Rio de Janeiro assiste hoje  retomada do controle do estado em dezenas de favelas. Trinta e trs Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs) formaram as bases dessa mudana. Em 2002, o Rio registrou taxas de homicdio de 63 por grupo de 100.000 pessoas. No ltimo ano, os ndices foram 69% menores. Enquanto isso, a violncia tem se agravado no Norte e no Nordeste, onde o nmero de homicdios aumentou 195% e 92%, respectivamente, entre 2000 e 2010. 

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QUANDO UMA
NOTA NO 
S UMA NOTA
11 de setembro de 2002
Uma das caractersticas da coluna Radar  que uma nota pode ser sempre mais do que o registro de uma informao exclusiva. Por trs da notcia, trazida para o leitor em primeira mo, costuma se desenhar um fenmeno, uma personalidade, uma trama. Foi assim com a nota intitulada "Na ponte area Sua-Brasil", que dava conta da deciso do empresrio Jorge Paulo Lemann  um dos donos da InBev  de levar sua famlia para residir na Sua por temer pela vida da mulher e dos trs filhos pequenos. Ali estava embutido, nas entrelinhas, um quadro desolador: o aumento da violncia no pas no incio da dcada passada.

TRECHO "Com toda a discrio que lhe  caracterstica, Jorge Paulo Lemann (...) levou a mulher e os trs filhos para morar na Sua. Eles deixaram So Paulo acuados pela violncia. (...) Lemann  carioca, mas filho de suos  tem se dividido entre l e c. 


10. A FARRA DAS SLVIAS VERMELHAS
O Partido dos Trabalhadores, h dez anos no poder, procura impor sua viso de sociedade ao transformar o pblico em partidrio.

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UMA AMEAA  LIVRE EXPRESSO
18 de agosto de 2004
Depois de vinte meses na Presidncia da Repblica, Lula exibia 38% de aprovao do eleitorado, a economia dava sinais de recuperao e sua candidata  prefeitura de So Paulo, Marta Suplicy, estava  frente nas pesquisas. Diante desse cenrio, o Partido dos Trabalhadores decidiu exercitar sua vocao autoritria. Ao proporem a criao de uma Agncia Nacional do Cinema e do Audiovisual e um certo Conselho Federal de Jornalismo, os petistas deixaram claro, como mostrou VEJA, que a liberdade de expresso  um dos pilares bvios do regime democrtico  no combina com sua forma de governar.

TRECHO "Tudo parecia sob controle, com o pas entrando num sereno perodo de prosperidade  mas o governo resolveu disparar um tiro de bazuca no prprio p ao revelar um incontrolvel tique autoritrio. Primeiro, divulgou um projeto de controle ditatorial da produo de cinema e televiso, que inclua at intromisso na linha editorial da programao. Em seguida, despachou ao Congresso uma proposta que consiste no mais severo ataque  liberdade de imprensa no pas desde o regime militar. O Planalto no esperava que as duas propostas gerassem uma reao to profundamente indignada da sociedade  no Brasil e no exterior.
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     Para enunciar seus dilemas, a filosofia sempre se valeu de termos comuns no universo teatral  como ator e autor, por exemplo. Na Grcia antiga, os deuses eram identificados como os autores da natureza e dos homens. De acordo com Plato, no passaramos de marionetes fabricadas pelos moradores do Olimpo  no se sabe se para divertimento ou algo srio, comdia ou tragdia. Na Idade Mdia, os mesmos vocbulos foram retomados por Santo Agostinho. Ele definia Deus como o autor da existncia e dizia que os homens atuam segundo a sua lei  ou so expulsos do palco. "A nossa vida", ensinou Agostinho, " comdia". Todo poder mundano  instvel e corrupto; retirada a justia, os estados seriam quadrilhas, diz ele em A Cidade de Deus. Plato advertia que a justia  fugidia como a lebre na touceira: "Precisamos de toda nossa ateno para evitar que ela escape de nossos olhos". A justia aparece nos atos dos governantes que sabem ler e seguir os decretos divinos, acreditava Agostinho. 
     A distino entre ator e autor foi transposta ao estado moderno para designar o povo e os governantes. Na viso de Thomas Hobbes, a sociedade  a autora do poder poltico  e, com ele, obedece a si mesma. Os governantes atuariam para suspender as guerras. Com Hobbes, o estado abandona a teologia; a justia  mantida na vigilncia dos governos que aplicam o pacto fundador da repblica. Sem um "Deus autor", o soberano faz o que  exigido pelo coletivo. Age como "ator" e no "'autor" do pacto. 
     De que maneira se estabelece o autoritarismo, o regime no qual essa ordem se inverte? 
     Para responder a essa questo, vejamos primeiramente a lgica que instaura o estado. 
     Baruch Spinoza, inspirado em Maquiavel, diz que um poder sem leis  quimera. Contudo, observa ele, os lderes no podem impor aos dirigidos coisas absurdas e revoltantes. Explica Spinoza no seu Tratado Poltico: "Se digo que tenho o direito de fazer desta mesa o que eu desejar, certamente no penso faz-la comer capim. Quando afirmo que os homens dependem no de si mesmos, mas da sociedade, no indico que eles possam perder a natureza humana e se revestir de uma outra e que o estado possua o direito de exigir deles algum respeito pelo que provoca sua risada ou desgosto.  impossvel aos governantes e seu poder pblico violar ou menosprezar abertamente as leis por eles mesmos estabelecidas e, mesmo assim, manter sua majestade, pois tais atos transformam o temor em indignao e o estado civil em estado de guerra". 
     O autoritarismo pode ser compreendido como a tentativa de impor s pessoas posturas que neguem a sua fora mental. Na democracia, argumenta Spinoza em outro livro, o Tratado Teolgico-Poltico, " quase impossvel que a maioria dos homens concorde com algum absurdo", porque nela "ningum transfere seu direito natural a um outro, de tal modo que no seja mais consultado". O regime democrtico "mostra quanto  til a liberdade no estado". 
     Sem a democracia, conclui o filsofo holands naquela mesma obra, "os que governam o estado ou dele se tornaram os donos sempre se esforam para tingir os crimes cometidos com uma aparncia de direito e persuadir o povo de que agiram honestamente; eles conseguem facilmente tal coisa se a interpretao do direito s depende deles. Pois  claro que de semelhante direito eles arrancam grande licena para fazer o que desejam e seu apetite exige. Uma grande parte da licena lhes  subtrada se o direito de interpretar as leis pertence a outros e sua interpretao verdadeira  manifesta e incontestvel para todos". 
     Em um estado onde reina a democracia, ningum, sobretudo os governantes, tem a licena para impor seus fins e doutrinas  cidadania. A situao piora, segundo Spinoza, se a imposio de atitudes e crenas se faz em proveito de quem ocupa os palcios.  
     O que o Partido dos Trabalhadores procura impor aos brasileiros  exatamente isto: absurdos coloridos com tintas falsificadas de direito, como a compra de votos para garantir projetos teis ao Planalto. O mercadejo deveria ser visto como legtimo e necessrio, digno da raison d'tat. Tudo feito para manter os cargos pblicos sem competncia administrativa. Disso resultou um ministrio gigantesco com resultados de Lilliput. 
 evidente, em todos os planos do governo petista, o intento de impor certa viso de sociedade como se fosse a nica a ser respeitada. No menos clara  sua busca de aplicao de um metro partidrio a ser imposto  vida civil e estatal. A propaganda submete o governo e boa parte da mdia  regncia do marqueteiro Joo Santana; ela segue o autoritarismo. 
     "Tirano  quem usa os bens dos governados como se fossem seus", disse o jurista francs Jean Bodin, que viveu no sculo XVI. Haveria insanidade maior do que defender o contrrio? Quando se ridiculariza a justia e a f pblica sofre abalos srios, o que temos  a via autoritria. Quem se alia a figuras oligrquicas que serviram, contentes,  ditadura e exige que as multides aplaudam o disparate  como ocorreu quando Lula apertou a mo de Paulo Maluf em troca do apoio do ex-governador ao ento candidato do PT  prefeitura de So Paulo, Fernando Haddad  traduz e espalha o autoritarismo. 
     Durante as manifestaes populares de junho, as bandeiras petistas foram queimadas nas ruas no tanto pelo pretrito, mas devido ao seu presente. Os eventos de importncia histrica, disse Hegel, ocorrem duas vezes; na primeira, conforme acrescentou Marx, como tragdia, e na segunda, como farsa. 
     Aqui estamos de volta ao universo teatral citado anteriormente. O dilema de agora teve incio risonho. O trmino  previsvel. Faamos votos para que no Partido dos Trabalhadores seja mais forte a tentao e mais frgil o vezo autoritrio. Se nele vencer  esperemos  a racionalidade democrtica, o seu ventriloquismo pode recuar. Caso ocorra o oposto, surgiro novas buscas de reduzir o autor poltico, o povo, a simples marionete que repete as falas do partido e de seu governo. E tal coisa tem nome: autoritarismo.

Roberto Romano
 professor titular de filosofia da Unicamp e autor de O Caldeiro de Medeia


11. NAS ASAS DO STF

O VDEO-BOMBA DO GOVERNO LULA
18 de maio de 2005
Em uma reportagem exclusiva, que daria incio  mais grave crise enfrentada pelo governo Lula, o escndalo do mensalo, VEJA revelou a onda de corrupo que grassava nos Correios. Num vdeo ao qual a revista teve acesso, Maurcio Marinho, funcionrio da estatal, aparecia recebendo propina. Ele dizia agir em nome do PTB, ento presidido pelo deputado Roberto Jefferson. Sentindo-se abandonado pelo PT aps a denncia, Jefferson viria a pblico para dar detalhes do esquema.

TRECHO H um ms dois empresrios estiveram no prdio central dos Correios, em Braslia. Queriam saber o que deveriam fazer para entrar no seleto grupo de empresas que fornecem equipamentos de informtica  estatal. Foram  sala de Maurcio Marinho, 52 anos, funcionrio dos Correios h 28, que desde o fim do ano passado chefia o departamento de contratao e administrao de material da empresa. Marinho foi objetivo na resposta  indagao dos empresrios. Disse que, para entrar no rol dos fornecedores da estatal, era preciso pagar propina."
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Pela primeira vez na histria, um julgamento no Supremo Tribunal Federal mobilizou o pas. Acreditem, ele foi o ponto de partida das manifestaes de protesto de junho deste ano.
MIGUEL REALE JNIOR

     At 2001, para julgar deputados e senadores por crimes comuns o Supremo Tribunal Federal (STF) dependia de autorizao da Cmara ou do Senado. O resultado natural dessa exigncia tinha jeito de impunidade: poucos parlamentares eram processados. Com a aprovao da Emenda Constitucional 35, o quadro mudou rapidamente; dezenas de congressistas passaram a ser submetidos a procedimentos legais, sempre muito rigorosos, do STF. Foi um avano. Entretanto, o ponto culminante dessa nova fase do Supremo s chegaria alguns anos mais tarde, com o julgamento do mensalo. Com seus 38 rus  muitos deles com advogados experientes , provas testemunhais extensas, laudos periciais e inmeros documentos, o processo chegou  mais alta instncia judicial do pas como o seu maior desafio histrico. Ao venc-lo, o STF no apenas correspondeu ao que tecnicamente se poderia esperar dele. O julgamento proporcionou uma indita aproximao entre os juzes da Corte e os cidados brasileiros. Mais do que isso, seu resultado levou a populao a acreditar que valia a pena se mobilizar por um pas melhor  e por essa razo, ntida, no avesso de outras demandas um tanto difusas, ela foi as ruas nas j histricas manifestaes de junho passado. 
 compreensvel. Havia, desde o incio, uma desconfiana de que o processo do mensalo  cuja denncia veio  tona em VEJA, em reportagem de Policarpo Jnior, Otvio Cabral e Alexandre Oltramari, e depois na Folha de S.Paulo  no chegasse ao fim, na incmoda tradio que o jargo popular dizia "terminar em pizza". Em agosto de 2005, criou-se o movimento Da Indignao  Ao, do qual fui um dos coordenadores, que reunia entidades da sociedade civil e em cujo manifesto se pediam demandas concretas: "punies firmes e proporcionais s faltas praticadas so o nico desfecho que os cidados brasileiros aceitam para as investigaes em curso". 
     A denncia do Ministrio Publico sobre o caso foi apresentada ao Supremo em abril de 2006. Designou-se, ento, como relator do processo, o ministro Joaquim Barbosa. Os rus e os polticos que os cercavam, como o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, acreditavam que o mensalo seria, no futuro, j esquecido, nada mais do que uma "piada de salo". Apostavam na morosidade e no desinteresse do STF para enfrentar, como juiz de primeira instncia, um volumoso processo-crime, ao mesmo tempo em que se alardeava pela imprensa a inexistncia de provas dos delitos. 
     Contra todas as expectativas, o julgamento teve incio em agosto de 2012. O relator tomou em seu voto o decisivo caminho de analisar os fatos a partir do esquema de captao de meios para a prtica posterior da corrupo, com cuidadosa anlise de dados periciais, documentais e testemunhais, que indicaram a existncia de trs ncleos: o operacional ou publicitrio, de Marcos Valrio; o financeiro, do Banco Rural; e o poltico, do ento ministro da Casa Civil Jos Dirceu. Em todas as frentes, as descobertas foram contundentes: 
 No ncleo operacional, constatou-se, por exemplo, que vultosos recursos do Banco do Brasil foram transferidos, como cotista do Fundo Visanet,  agncia de publicidade de Marcos Valrio. 
 No ncleo financeiro, verificou-se, por laudos periciais, a simulao de emprstimos feitos pelo Banco Rural, que, segundo o acrdo, encobriu as manobras realizadas e os destinatrios finais do dinheiro. 
 No ncleo poltico, a deciso foi assertiva no sentido da ao sincrnica entre corruptores e corrompidos, com atuao corruptora por parte do ento tesoureiro do PT Delbio Soares, e de Jos Dirceu. A dupla atuava com os encarregados dos ncleos operacional e financeiro, disso resultando o desvio de dinheiro pblico para a entrega de propina a parlamentares por via do desconto dos recursos das contas bancrias das agncias de publicidade ou do recebimento de numerrio em quartos de hotis. Os parlamentares comprados  presidentes de partido ou lderes  tinham poder de influncia sobre os deputados de suas agremiaes. 
     Esse rduo julgamento se estendeu por quatro meses, nos quais o Supremo Tribunal Federal atuou, realmente, como juiz de primeira instncia ao avaliar provas, examinar argumentos da acusao e da defesa, dosar penas. Foi essa extrema dedicao que aproximou o nosso mximo rgo do Judicirio da populao brasileira. A transmisso ao vivo das sesses  no apenas pela TV Justia, mas tambm por meio de canais e sites da internet  construiu uma relao de intimidade entre o plenrio do STF e parcela significativa da sociedade, assistente privilegiada de um grave julgamento com toda a liturgia que lhe  prpria. O dia a dia e o desenlace do processo passaram a integrar as conversas do cotidiano, apesar da natural dificuldade de compreenso de algumas expresses, talvez exageradamente pomposas mas necessrias, pela preciso, ao explicar fatos. 
     Desse modo, quebrou-se a distncia entre o Supremo Tribunal Federal e o povo, que se viu dentro das sesses de julgamento, viveu de perto a descrio dos fatos lesivos ao pas, comprometedores das instituies, e a reprovao discutida e pensada de seus autores. Com isso. ele passou a crer na possvel seriedade do Brasil. 
     No h dvida, portanto, de que a condenao dos principais rus do mensalo pelo STF foi o ponto de partida para o despertar da sociedade. A indita deciso jurdica abriu uma imensa avenida na qual passa, hoje, todo tipo de revolta contra a forma antiga, atavicamente interesseira, como se governa no Brasil. A realizao de justia constituiu-se em germe do anseio maior pela prpria justia. No teriam ocorrido passeatas de protesto em junho, enfim, e cabe ressaltar esse ponto, se no tivesse havido o julgamento do processo do mensalo pelo Supremo. Ele significa, com toda a sua amplitude histrica, uma alavanca para a cidadania. 

Miguel Reale Jnior,
advogado,  professor titular da Faculdade de Direito da USP. Membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justia do governo FHC.

CRIME E CASTIGO
25/5/2005 - Nas semanas seguintes  da edio que trouxe a reportagem sobre a mquina corruptora montada pelo PT e seus aliados no governo, VEJA seguiu publicando uma srie de denncias que culminaram, sete anos depois, na condenao exemplar dos rus.
1/6/2005 - Enrolado, Roberto Jefferson ameaa os petistas
15/6/2005  Mensaleiros comeam a ser desmascarados 
22/6/2005 - A "deciso mais difcil" de Lula: demitir Jos Dirceu
29/6/2005 - O PT envergonha o governo confundindo-se com ele
6/7/2005  Ligaes perigosas: Valrio e os petistas
13/7/2005 - A crise respinga no presidente; e o caso do dinheiro na cueca
20/7/2005 - Sinal vermelho para Lula; pagamentos dentro e fora do PT
27/7/2005 - Valrio exige uma fortuna para no "estourar tudo"
3/8/2005 - Dirceu ruge e desponta como o chefe da tropa
10/8/2005 - Encurralado, Lula abusa da pacincia da populao
17/8/2005 - Na televiso, Lula no consegue se explicar e se complica mais
21/9/2005 - Ascenso e queda de um partido poltico brasileiro
18/4/2012 - Em desespero, o PT tenta apagar o inapagvel
1/8/2012 - O destino do lder e dos demais mensaleiros comea a ser traado
19/9/2012 - Marcos Valrio acusa: o presidente sabia de tudo
17/10/2012 - A justia feita: o STF condena a cpula do mensalo


12. ESCNDALO NO CAMPO DA TICA
A ao contra o juiz que manipulava resultados s ser retomada se o STJ acatar recurso da acusao.

     O desdobramento mais contundente do escndalo da "mfia do apito", denunciado por VEJA em reportagem de Thas Oyama e Andr Rizek, ocorreu no campo desportivo. A anulao e a remarcao das onze partidas do Campeonato Brasileiro de 2005 apitadas pelo juiz Edilson Pereira de Carvalho, o grande articulador do esquema, provocaram uma enorme reviravolta no torneio. Se tivessem sido mantidos os resultados originais, o campeo brasileiro daquele ano seria o Internacional de Porto Alegre, e no o Corinthians. Na esfera criminal, porm, o jogo est truncado. A ao penal s ser retomada se o Superior Tribunal de Justia acatar o recurso da acusao. Se no forem julgados antes de 2017, os crimes em pauta, de estelionato e formao de quadrilha, podero prescrever. 
     Mesmo que isso ocorra, no se poder falar em derrota. A exposio do caso serviu para que fossem criados novos artigos no  Estatuto do Torcedor  entre eles, um que diz respeito  fraude em competies. "As ferramentas hoje so melhores do que as de 2005", afirma Jos Reinaldo Guimares Carneiro,  poca um dos promotores do Gaeco que investigaram o caso. "Houve uma evoluo para blindar as competies esportivas do pas." 
     Embora seja indiscutvel que o episdio contribuiu para uma melhor definio jurdica do crime de manipulao de resultados, o caso no foi suficiente para dar soluo a uma parte crucial do problema: a falta de profissionalizao da arbitragem. "Um projeto de lei de 2001 ainda est em tramitao no Congresso", diz o ex-rbitro Slvio Spinola Fagundes Filho, que foi colega de Edilson nos quadros da Fita e pendurou o apito em 2011. "No tenho dvidas de que, com a profisso reconhecida, dedicao exclusiva e remunerao garantida, a arbitragem em nossos campeonatos melhorar muito." 

JOGO SUJO NO CAMPEONATO
28 de setembro de 2005
Em meio  disputa do Campeonato Brasileiro de 2005, um escndalo denunciado por VEJA afetaria o desfecho da competio. O rbitro Edilson Pereira de Carvalho foi flagrado em aes que puseram em xeque os resultados das partidas por ele apitadas. Edilson revelou-se um arranjador de resultados, favorecendo um grupo de apostadores que lucravam com os placares forjados. A investigao feita pela revista contou com a ajuda do Grupo de Atuao Especial e Represso ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministrio Pblico de So Paulo, e da Polcia Federal. A publicao da reportagem culminou na anulao de onze partidas do Brasileiro daquele ano e no banimento dos gramados do juiz ladro.

TRECHO "Os dilogos, gravados desde agosto deste ano, revelaram a existncia de uma trama destinada a encher os bolsos de um grupo de apostadores  custa da boa-f de milhares de torcedores que, ao adquirir ingressos para um espetculo esportivo, se tornaram figurantes involuntrios de uma fraude. (...) Um juiz pode interferir decisivamente no resultado de um jogo. Ele pode forjar pnaltis, expulsar jogadores injustamente, validar gols ilegais e anular gols legtimos. Edilson Pereira de Carvalho e seus asseclas faziam essas tramias (...) em troca de propinas que variavam entre 10.000 e 15.000 reais por partida." 


13. TODOS OS HOMENS SO IGUAIS
A seleo do sistema de cotas est mais rgida. O problema  seu erro de origem: classificar pessoas por critrios raciais.
ROBSON BONIN

     Uma bizarrice, patrocinada em Braslia pelos burocratas das polticas de cotas raciais, trouxe novamente  tona o descalabro de classificar pessoas por um critrio racial  como se no bastassem os histricos exemplos do nazismo na Alemanha e do apartheid na frica do Sul. H seis anos, os irmos Alex e Alan Teixeira da Cunha foram  Universidade de Braslia (UnB) para se inscrever no vestibular. Filhos de pai negro e me branca, deram entrada nos papis para disputar a vaga por meio do sistema de cotas. Desde 2004, a UnB, a exemplo de outras 33 universidades do pas, reservava 20% de suas vagas a alunos negros e pardos que conseguissem atingir a nota mnima no exame. A universidade selecionava candidatos a partir de uma foto. Feita a inscrio, Alan, considerado negro, foi aceito no sistema de cotas. Alex, classificado como branco, no. O episdio teve enorme repercusso por uma simples razo: Alex e Alan so gmeos univitelinos. 
     O escndalo forou a universidade, pioneira na implantao do sistema de cotas, a rever seus critrios de seleo. No lugar de uma simples foto, uma banca de avaliao criada para evitar fraudes e erros. Os candidatos passaram a ser submetidos a uma entrevista pessoal para pleitear a cota. Tudo isso tornou os mecanismos de seleo do programa bem mais rgidos. Mas eles no so capazes de atingir o cerne do problema: o programa de cotas, tal como outras polticas raciais, baseia-se na equivocada assertiva de que cor da pele diferencia os homens. Bastaria, de novo, recorrer  histria para constatar o erro dessa viso: no Brasil, desde o fim da escravatura, jamais existiu nenhuma barreira institucional aos negros (embora as dificuldades de ascenso social sejam dramticas). 
     A UnB criou o sistema de cotas para aumentar a presena de negros no cmpus. Em uma dcada, cerca de 6600 alunos entraram na universidade pelo programa, o que elevou a presena de negros de 2% para 13%. Sem diferenciar a condio social dos candidatos  entre os cotistas, 47% vinham de escolas pblicas e a maioria (49%) de instituies privadas , o modelo beneficiou pobres, mas tambm estudantes de boas condies financeiras. No caso dos pobres, cumpriu o papel de corrigir uma velha distoro. No caso dos abonados, funcionou como privilgio descabido. 
     Os dados da UnB mostram que metade dos alunos cotistas foi educada em colgios privados. Tinha, portanto, condies de disputar a vaga em igualdade com os demais candidatos, mas  por causa da cor da pele, foi beneficiada. O caso dos irmos Alex e Alan  um exemplo. Moradores de uma regio de classe mdia, em Braslia, eles sempre estudaram em colgios particulares e aderiram s cotas no por necessidade, mas sim porque viram no sistema uma forma de facilitar a aprovao no vestibular. O resultado escancarou, mais uma vez, o erro do programa. 
     Alan concorreu  vaga no curso de educao fsica e foi o primeiro colocado entre os cotistas, com pontuao suficiente inclusive para ser aprovado no sistema universal. Ele se formou em 2011, porm optou por no seguir a profisso. Hoje, mora com os pais e estuda para concursos pblicos. J Alex, apesar das cotas, foi reprovado para administrao, mas acabou aprovado, no como cotista, no vestibular do curso de cincias de alimentos da Universidade Federal de Viosa (MG). Ele mora com os tios em Carmo do Paranaba, faz faculdade com a ajuda financeira dos pais e deve se formar em 2014. Aps recorrerem ao benefcio dado pela cor da pele, ambos reconhecem agora que o sistema  poderia ser aperfeioado: "Seria mais justo que fossem estabelecidos critrios sociais", diz Alan. "As cotas so importantes, mas o parmetro deve ser social", concorda Alex. 
     A opinio dos gmeos parece, aos poucos, ser compartilhada pela academia. Atualmente, uma comisso da UnB se dedica a reavaliar o programa para adequar a instituio  legislao aprovada no ano passado, que destina 50% das vagas em universidades federais a estudantes de escolas pblicas. O problema  que a cota racial sobrevive dentro desse "contexto social" e, pior, exige, na lei atual, apenas a autodeterminao do candidato para valer. Ou seja, se o sujeito diz que  ndio,   e ponto. "As cotas raciais j tm uma grande insero nas cotas sociais. Os dois sistemas no podem mais coexistir", afirma o decano de Ensino de Graduao da UnB, Mauro Rabelo. Mas a ideia  fazer com que uma parte dessas vagas seja destinada exclusivamente aos negros de baixa renda. Como se v, o equvoco da classificao pela cor da pele permanece. 

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PRECONCEITO UNIVERSITRIO
6 de junho de 2007
No incio de maio de 2007, os gmeos univitelinos Alan e Alex Teixeira da Cunha inscreveram-se no vestibular da Universidade de Braslia (UnB) optando por disputar o concurso valendo-se do sistema de cotas raciais. Contudo, ao analisarem as fotos dos irmos, os responsveis pelo exame consideraram que Alan era negro e Alex, branco  portanto, s o primeiro poderia fazer uso do programa de cotas. O absurdo, tratado em uma reportagem de capa por VEJA, permitiu  revista discutir os inconvenientes, e os riscos, de classificar pessoas pela cor da pele  uma prtica que norteou os nazistas na Alemanha e os partidrios do apartheid na frica do Sul.

TRECHO "A inspirao para a adoo de cotas 'raciais' so os Estados Unidos. L, uma secular histria de discriminao dos negros foi amenizada pela integrao forada nas escolas e nos locais de trabalho. Nunca houve nada parecido no Brasil. (...) A histria tem exemplos eloquentes de que a oficializao da discriminao racial tem consequncias desastrosas. O mais notrio deles, evidentemente,  o genocdio promovido por Hitler entre os judeus." 


14. A CHAMA ACESA DA IMPUNIDADE
Dcadas de descaso diante de crnicas de tragdias anunciadas tiveram seu ponto culminante no incndio da boate Kiss, em Santa Maria. Oito meses depois, ningum foi punido. E as casas noturnas continuam sendo uma armadilha mortal para os frequentadores.

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NUNCA MAIS
Que em memria dos 235 jovens mortos de Santa Maria faamos um Brasil novo, onde ningum mais seja vtima do descaso, da negligncia, da corrupo de valores e da impunidade.

A MAIOR TRAGDIA EM CINQUENTA ANOS
6 de fevereiro de 2013
Um sentimento de luto  maior talvez apenas que o de revolta  ainda tomava conta dos brasilileiros quando a edio especial de VEJA sobre o incndio na boate Kiss, em Santa Maria, chegou s bancas. Em uma reportagem que mobilizou toda a sua redao, a revista mostrava como a impunidade e a corrupo haviam contribudo de forma decisiva para a morte de 235 jovens (o nmero final  em 242), cada um com seus sonhos, seus amore sua famlia  seu futuro, enfim, interrompido de maneira precoce numa noite de horror.

TRECHO "Na manh do domingo passado, acordamos todos em Santa Maria e no conseguimos mais sair de l. Ficamos em estado de choque como seus moradores, sofremos com as mesmas cenas de jovens correndo na frente da boate Kiss, tentando ajudar, tentando entender, tentando saber quem se salvou, quem morreu. Como todos os moradores de Santa Maria, tivemos de imaginar o inconcebvel; 235 jovens asfixiados, queimados, empilhados como os mortos de Pompia diante de portas sem sada da ratoeira.
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Dcadas de descaso diante de crnicas de tragdias anunciadas tiveram seu ponto culminante no incndio da boate Kiss, em Santa Maria. Oito meses depois, ningum foi punido. E as casas noturnas continuam sendo uma armadilha mortal para os frequentadores.
ANDR ELER

     Nos dias que se seguiram  tragdia da boate Kiss, um sbito furor fiscalizatrio tomou conta das autoridades brasileiras. Por todo o pas, blitze fechavam boates com sadas de emergncia trancadas, extintores de incndio vazios, rotas de fuga obstrudas. A Cmara dos Deputados mobilizou-se e anunciou que aprovaria uma lei nacional para padronizar as normas de segurana e evitar que o horror se repetisse. Mas aos poucos a fumaa baixou, e o descaso, a corrupo e a impunidade que deixaram um saldo de 242 vtimas, na esmagadora maioria jovens com a vida pela frente, voltaram a se impor. 
     Nos ltimos meses os reprteres de VEJA percorreram quarenta casas noturnas em seis estados do pas  Amazonas, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e So Paulo , a maioria com capacidade acima de 500 pessoas. O objetivo era descobrir o que mudou depois do inferno de Santa Maria, quando um sinalizador lanado num show pela banda Gurizada Fandangueira atingiu o forro da boate, de material inflamvel, e provocou um incndio de fumaa txica, uma armadilha sem sada para centenas de pessoas, produzindo a maior tragdia do pas em meio sculo. Acompanhados de tcnicos em segurana com o olhar treinado para encontrar falhas, os reprteres constataram que h muitas novas Kiss  espera de uma centelha que transforme, mais uma vez, a diverso em morte. Apenas seis das quarenta boates cumpriam os requisitos bsicos nos quatro itens analisados: respeito  lotao, sadas de emergncia desobstrudas, extintores carregados e ausncia de material inflamvel. Em dezesseis desses locais, os especialistas apontaram problemas graves, como portas trancadas e obstculos que impediam a rota de fuga  atalhos para tragdias. Em outros dezoito, foram encontradas falhas menos escandalosas, mas problemticas, como falta de sinalizao clara para a desocupao. Basta lembrar que muitos dos que morreram na Kiss estavam nos banheiros, porque correram para l pensando tratar-se da sada. 
     Quase oito meses depois da tragdia, o projeto prometido pelos deputados tampouco se tornou lei. O texto prev que os donos dos estabelecimentos e os agentes pblicos que deveriam fazer a fiscalizao sejam responsabilizados se houver um incndio; torna obrigatria a abertura de alvars e resultados de vistoria na internet; exige seguro privado para as casas noturnas; e probe o sistema de comandas  para que, em caso de confuso, os seguranas no barrem a fuga dos frequentadores, com medo do prejuzo (nos momentos iniciais da tragdia da Kiss, alguns funcionrios, sem noo do inferno que ardia perto do palco, no deixaram que as vtimas sassem). Em junho, uma comisso aprovou o projeto, que est pronto para ser votado. 
     Mas, mesmo que amanh o Brasil se torne um novo pas, em que as leis so cumpridas e os culpados acabam na cadeia, o passado no se apaga. Em Santa Maria, as famlias das 242 vtimas ainda se revezam todos os dias em uma viglia para lembrar a tragdia. Camisetas com o rosto de jovens mortos precocemente chamam ateno no centro da cidade. A boate que foi palco das mortes se transformou em um santurio informal. Cartazes e pichaes clamando por justia esto por toda parte. Em junho, 300 pessoas invadiram a Cmara Municipal da cidade, depois que uma gravao revelou a existncia de um acordo para livrar o poder pblico de culpa na CPI que investigava o incndio na Kiss. Dois vereadores diziam, de forma clara, que a comisso no poderia resultar em nada, para no atingir a prefeitura. Mesmo com a revolta, o relatrio final no apontou nenhum executivo municipal culpado. 
     A Associao dos Familiares de Vtimas e Sobreviventes da Tragdia de Santa Maria coleciona derrotas na Justia. Os principais responsveis pelo que ocorreu na Kiss ainda no foram julgados, e o caso no est nem perto de um desfecho. Dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Bonilha Leo, e os dois scios da boate, Elissandro Spohr, o Kiko, e Mauro Hoffmann, passaram quatro meses presos e foram soltos no fim de maio. Marcelo e Luciano voltaram para casa, em Santa Maria. Os donos da Kiss deixaram a cidade com medo de represlias. O processo ainda est na fase de depoimentos, e a previso  que o julgamento no ocorra antes de 2015, na melhor das hipteses. A esperana de uma punio proporcional s dimenses da tragdia se mostra cada vez mais tnue. "A gente est achando que vai ficar por isso mesmo; parece que querem mostrar que os rus so to vtimas quanto nossos filhos", revolta-se Ariane Floriano, me de Rogrio, que morreu no incndio, aos 26 anos. 
     A Ultima sobrevivente deixou o hospital em julho, 156 dias depois daquela madrugada onde futuros foram transformados em cinzas na fogueira da impunidade. As cicatrizes, no corpo e na alma, sero carregadas para sempre pelas famlias das vtimas e pelos sobreviventes. Nos dias seguintes  tragdia, um sentimento de que se faria de tudo para que aquilo nunca mais se repetisse tomou conta do Brasil. De l para c, nada mudou. 

"Estou vivendo uma mentira" - Jssica Duarte, 20 anos, abandonou o curso de administrao e foi viver em Curitiba, com os pais. Teve 45% do corpo atingido pelo fogo, mas o que mais lhe di, ainda hoje,  a perda do namorado, que morreu no hospital, vtima do incndio, no dia em que completavam cinco anos juntos. "s vezes, ainda acho que ele vai estar l em Santa Maria, parece que estou vivendo uma mentira", diz a jovem. Agora, ela usa as duas alianas de prata do casal, de namoro, nos dedos, e as duas de ouro, de noivado, como pingentes de uma pulseira.

Tenho de trabalhar, para seguir com a vida" - Talvez nenhuma imagem tenha representado to bem a dor provocada peia tragdia de Santa Maria quanto a de Yasmin Mller de 19 anos, debruada sobre o caixo do namorado, a cabea coberta pelo chapu do jovem ginete como uma ltima homenagem. Ela saiu ilesa, mas marcou no seu corpo, com uma tatuagem na costela, "perto do corao", as palavras que Lucas lhe enviou no primeiro bilhete que trocaram. Agora, tenta deixar o passado para trs. "Tenho de trabalhar, para seguir com a vida. Mas, quando paro, ainda me lembro do que aconteceu."

"Pelo menos deu para salvar o rosto" - Bruno Grethe, 18 anos, teve queimaduras no rosto, no brao e nas costas. Ficou irreconhecvel at para sua me, quando ela o procurava entre os feridos. "O enfermeiro chegou a dizer que eu no estava respirando, mas outro viu que eu tinha chance. Depois que uma coisa dessas acontece, a gente passa a valorizar mais cada momento", afirma o garoto, que nem se incomoda com as cicatrizes. As marcas ainda lhe tomam o brao esquerdo e boa parte das costas. "Pelo menos deu para salvar o rosto", resigna-se. 

COM REPORTAGEM DE ALEXANDRE ARAGO, KALLEO COURA E PIETER ZALIS


